A construção do Baile Charme do Viaduto de Madureira como quilombo histórico e simbólico
DOI:
http://doi.org/10.5902/2357797594063Palavras-chave:
Baile Charme, Viaduto de Madureira, Quilombo simbólico, Fardo colonialResumo
Neste artigo, ao caracterizarmos e nos opormos ao fardo colonial que insiste em inferiorizar a parcela afrodiaspórica da sociedade, temos como objetivo analisar a construção discursiva do Baile Charme do Viaduto de Madureira como um quilombo histórico e simbólico (Nascimento, 2018), a partir da narrativa de Michell, DJ residente e sócio-diretor do espaço, reportada em uma entrevista concedida a um podcast. Ademais, propomo-nos a analisar como a transmissão de conhecimento no movimento charme é construída nas memórias narradas por Michell, desde a sua juventude até tornar-se DJ residente do Baile Charme do Viaduto de Madureira (RJ). Nossos pressupostos teórico-práticos são articulados a partir dos conceitos antirracistas e libertários, a saber: de quilombo e corpo-documento (Nascimento, 2018; Nascimento; Gerber, 1989), ambientes de memória (Martins, 2003; 2021), e política de vida (Rufino; Simas, 2020; Rufino, 2021), situando-se em uma perspectiva metodológica qualitativo-interpretativista, de caráter interdisciplinar, subjetivo e situado (Denzin; Lincoln, 2006). A análise dos excertos da entrevista sugere que a trajetória de Michell é construída em constante referência aos saberes ancestrais do charme, acionados a partir de repertórios afetivos, familiares e comunitários. Por meio de práticas coletivas e performances corporais, o Baile Charme é construído como espaço de pertencimento, cuidado e resistência, no qual se compartilham e se (re)constroem saberes afrodiaspóricos. Diante das violências físicas e simbólicas e dos apagamentos promovidos por narrativas hegemônicas, compreendemos que o movimento charme atualiza práticas quilombolas nas experiências do/no Baile Charme do Viaduto de Madureira, funcionando como acervo vivo e coletivo de memórias e culturas negras.
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