Infâncias plurais e crianças como sujeitos: um estudo filosófico a partir das dissertações orientadas no GT Filosofar e Ensinar a Filosofar (ANPOF)
Plural childhoods and children as subjects: a philosophical study based on dissertations supervised in the GT Filosofar e Ensinar a Filosofar (ANPOF)
Universidade Federal de Santa Maria, Santa Maria – RS, Brasil.
Recebido em 30 de novembro de 2025
Aprovado em 03 de fevereiro de 2026
Publicado em 27 de fevereiro de 2026
RESUMO
Este trabalho apresenta um recorte da dissertação intitulada Filosofias, Infâncias e Escolas: um estudo sobre dissertações orientadas por membros do GT Filosofar e Ensinar a Filosofar (ANPOF), entre 2017-2022, desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Seu objetivo é compreender como as concepções de infâncias e de crianças são abordadas nas dissertações orientadas por membros do GT no período delimitado. Para alcançá-lo, realizamos uma pesquisa teórico-bibliográfica, articulada à Análise Textual Discursiva (ATD), técnica proposta por Roque Moraes (2003). Os resultados obtidos evidenciam que as dissertações elaboram uma forte crítica às compreensões tradicionais de infância, que posicionam as crianças como sujeitos incompletos. Em contraste, os trabalhos analisados convergem na valorização das infâncias como plurais, construídas social e historicamente, e na compreensão das crianças como sujeitos de direitos, liberdade para explorar e capacidade de criar sentidos sobre o mundo, inclusive, de filosofar. O estudo contribui de maneira singular para o campo do Ensino de Filosofia, ao evidenciar as relações entre filosofia e infância, reforçando o compromisso da filosofia com a educação, com as infâncias e com crianças e jovens.
Palavras-chave: Crianças; Infâncias; Filosofia; GT Filosofar e Ensinar a Filosofar.
ABSTRACT
This paper presents an excerpt from the dissertation entitled Filosofias, Infâncias e Escolas: um estudo sobre dissertações orientadas por membros do GT Filosofar e Ensinar a Filosofar (ANPOF), entre 2017-2022, developed in the Graduate Program in Education at the Federal University of Santa Maria (UFSM). Its objective is to understand how conceptions of childhoods and children are addressed in dissertations supervised by members of the GT during the defined period. To achieve this, we carried out a theoretical-bibliographic investigation articulated with Discursive Textual Analysis, a technique proposed by Roque Moraes (2003). The results obtained show that the dissertations develop a strong critique of traditional understandings of childhood, which position children as incomplete subjects. In contrast, the analyzed works converge in valuing childhoods as plural, socially and historically constructed, and in understanding children as subjects of rights, with the freedom to explore and the capacity to create meanings about the world, including philosophizing. The study contributes in a unique way to the field of Philosophy Education by highlighting the relationships between philosophy and childhood, reinforcing philosophy's commitment to education, childhood, and children and young people.
Keywords: Children; Childhood; Philosophy; GT Filosofar e Ensinar a Filosofar.
Introdução
A escrita deste artigo provém de um recorte da pesquisa de mestrado desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal de Santa Maria (PPGE/UFSM), intitulada Filosofias, Infâncias e Escolas: um estudo sobre dissertações orientadas por membros do GT Filosofar e Ensinar a Filosofar (ANPOF), entre 2017-2022. Neste estudo, buscamos compreender como essas dissertações descrevem as contribuições e os desafios da filosofia na formação escolar das crianças. Para tanto, buscamos mapear as dissertações orientadas por membros do GT que tratam da relação entre infância e filosofia, analisar de que modo as concepções de Filosofia para/com Crianças sustentam tais estudos e examinar como as concepções de infâncias são abordadas nesses trabalhos a partir do campo da filosofia.
As discussões que propomos, ao problematizar as relações entre filosofias, infâncias e crianças, justificam-se pela necessidade de contribuir para um debate que reconheça as crianças e as infâncias sob uma ótica afirmativa. Nesse contexto, as crianças são vistas como sujeitos legítimos na produção do conhecimento, dotados de voz, direitos, curiosidade e liberdade para explorar e criar sentidos sobre o mundo. Assim, rompe-se com a ideia de que elas seriam passivas, meras destinatárias dos trabalhos dos adultos, para entendê-las, em vez disso, “[...] como sujeitos de ação e participação social” (Ribas, 2025).
Já a infância, por sua vez, encontra diferentes possibilidades de interpretação. Na Filosofia da Infância, é associada a uma temporalidade outra, intensiva e aionica, distinta do tempo cronológico, sendo concebida como condição da experiência humana. Já na Sociologia da Infância, é entendida como uma “[...] categoria social do tipo geracional, socialmente construída” (Sarmento, 2009, p. 7), atravessada por variáveis como classe social, gênero e pertença étnica, o que nos permite falar em múltiplas infâncias. O que queremos destacar é que tomar as infâncias de maneira afirmativa exige enfrentar a “[...] premissa que historicamente relegou a infância a um momento de preparação para a vida adulta” (Ribas, 2025), desafiando uma tradição adultocêntrica que, por muito tempo, posicionou as crianças em um lugar de tutela e passividade.
Essas diferentes maneiras de compreender as infâncias tornam-se especialmente relevantes quando aproximadas do campo do Ensino de Filosofia, onde se torna necessário investigar como o conceito de infâncias é compreendido, uma vez que não há prática filosófica para/com crianças sem um conceito de infância que a ancore e viabilize seus sentidos. Nesse cenário, as produções do GT Filosofar e Ensinar a Filosofar da ANPOF emergem como materialidade significativa, ao evidenciar como distintas perspectivas filosóficas tensionam, sustentam ou interrogam a infância na sua relação com o filosofar.
Assim, com base em uma pesquisa teórico-bibliográfica mais ampla, o recorte proposto neste estudo tem como objetivo compreender como as concepções de infâncias e crianças são abordadas nas dissertações orientadas por membros do GT Filosofar e Ensinar a Filosofar da ANPOF, entre 2017 e 2022. Para tanto, apresentamos inicialmente o percurso metodológico da pesquisa, explicitando os critérios de seleção do corpus e os procedimentos adotados na Análise Textual Discursiva (ATD). Em seguida, desenvolvemos a análise e discutimos como as concepções de infâncias e crianças aparecem nas dissertações orientadas pelos membros do GT Filosofar e Ensinar a Filosofar.
Da constituição do corpus de análise
Visando alcançar o nosso objetivo, utilizamos como materialidade da pesquisa as produções orientadas por membros do GT Filosofar e Ensinar a Filosofar da ANPOF, e as analisamos por meio da Análise Textual Discursiva – ATD (Moraes, 2003). O mapeamento dessas produções baseou-se no levantamento realizado pela professora Jéssica Erd Ribas em sua pesquisa de doutorado. Ribas (2024, p. 38), ao buscar “[...] analisar como os saberes da Filosofia e da Educação constituem a produção de um discurso sobre ensinar Filosofia no Brasil, a partir da criação e das produções do GT Filosofar e Ensinar a Filosofar da ANPOF”, catalogou as dissertações e teses orientadas por professores(as) do GT entre 2006, ano de criação do grupo, e 2022, ano que antecede a conclusão de sua pesquisa.
A escolha dos trabalhos orientados por membros do GT Filosofar e Ensinar a Filosofar/ANPOF decorre da importância e legitimidade desse grupo na consolidação do Ensino de Filosofia como um campo de conhecimento no Brasil. Criado em 2006, em meio a instabilidade da disciplina de Filosofia na Educação Básica e à falta de um debate consistente sobre o seu ensino, o GT reúne pesquisadores(as), docentes e estudantes de diversas regiões do país para tomarem o Ensino de Filosofia como objeto de investigação filosófica, discutindo temas como a formação docente, práticas filosóficas e questões do ofício. Também promove, em âmbito nacional, a produção de pesquisas, “[...] questionamentos, publicações e interseções com outras áreas de produção filosófica” (Ceppas 2009, p. 112 apud Velasco, 2020, p. 30).
Assim, ao consolidar o Ensino de Filosofia como um campo de conhecimento e atuar como um espaço de debate e socialização acadêmica, o GT afirma-se, também, como um espaço de militância pela presença qualificada da Filosofia na escola pública. Por isso, suas produções, situadas na interface entre Filosofias, Ensino e Educação configuram-se como materialidade relevante e fundamental para este estudo.
Dito isso, a construção do corpus de análise ocorreu por meio de um processo rigoroso, guiado por critérios que garantissem uma materialidade consistente e representativa do tema de pesquisa, capaz de atender ao objetivo proposto. A partir do levantamento elaborado por Ribas (2024), selecionamos as produções que tratavam das Filosofias para/com Crianças e/ou de uma educação filosófica desde a infância. Em uma leitura inicial, considerando títulos e palavras-chave, identificamos 23 dissertações e sete teses relacionadas ao tema. Para refinar o corpus, adotamos um recorte temporal entre os anos de 2017, quando houve a homologação da versão final da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) para a Educação Infantil e para o Ensino Fundamental, e 2022, último ano contemplado pelo levantamento. Após a aplicação desse filtro, restaram dez dissertações e três teses. Tendo em vista os limites temporais do curso de mestrado, optamos por analisar apenas as dissertações.
Ao realizar a leitura do material e verificar informações como local, idioma e data de produção, percebemos a necessidade de novos ajustes no corpus. Assim, três trabalhos foram excluídos por não atenderem aos critérios de inclusão: um por estar fora do recorte temporal (defendido em 2023); outro por ter sido produzido em instituição estrangeira e, portanto, não se situar no contexto brasileiro; e o terceiro por não se tratar de uma dissertação de mestrado, mas uma monografia. Após essas exclusões, restaram sete dissertações de mestrado, todas disponíveis para consulta na Biblioteca Digital de Teses e Dissertações – BDTD. O quadro a seguir detalha o quantitativo resultante da aplicação dos filtros, somado à seleção manual dos materiais.
Tabela 1 – Documentação do Corpus de análise
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Indicador |
REFERÊNCIA |
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CP1 |
FRANCO, R. S. A contribuição da Filosofia para Crianças de Matthew Lipman para o desabrochar da criatividade na infância. 2019. Dissertação (Mestrado em Educação) – Universidade Estadual de Londrina, Paraná, 2019. Disponível em: http://repositorio.uel.br/items/4afc91a5-48b8-48d5-9ace-44af5b0637ff. Acesso em: 20 abr. 2025. |
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CP2 |
ZANINI, R. A. Educação filosófica e infância: o jogo teatral como possibilitador dessa relação a partir dos carecimentos das crianças. 2019. Dissertação (Mestrado em Educação) – Universidade Federal do Paraná, Curitiba, 2019. Disponível em: http://acervodigital.ufpr.br/handle/1884/65928. Acesso em: 20 abr. 2025. |
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CP3 |
SILVA, J. F. da. Filosofia “para”/“com” crianças: diálogos com Matthew Lipman e Walter Kohan. 2022. Dissertação (Mestrado em Educação) – Universidade Federal de Alagoas, Maceió, 2022. Disponível em: http://www.repositorio.ufal.br/handle/123456789/9305. Acesso em: 21 abr. 2025. |
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CP4 |
SILVA, P. L. da. A Filosofia no ensino fundamental: a vontade de potência e o pensamento criativo. 2019. Dissertação (Mestrado Profissional em Filosofia) – Universidade Federal de Pernambuco, Recife, 2019. Disponível em: http://repositorio.ufpe.br/handle/123456789/33877. Acesso em: 21 abr. 2025. |
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CP5 |
RODRIGUES. F. R. Filosofia no Ensino Fundamental II: práticas argumentativas e civilidade. 2019. Dissertação (Mestrado Profissional em Filosofia) – Universidade Federal do ABC, São Bernardo do Campo, 2019. Disponível em: http://educapes.capes.gov.br/handle/capes/644570. Acesso em: 22 abr. 2025. |
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CP6 |
MORAES, E. A. de. Sobre o raro encontro da filosofia para/com crianças nos cursos de pedagogia. 2021. Dissertação (Mestrado em Educação) – Universidade Estadual Paulista (Unesp), Faculdade de Ciências e Letras, Araraquara, 2021. Disponível em: http://repositorio.unesp.br/items/87474ca0-568d-4edf-8d3d-c11fac44b811. Acesso em: 22 abr. 2025. |
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CP7 |
DINIZ, R. B. Filosofia com crianças e mascotes: entre filosofia e artesania. 2020. Dissertação (Mestrado Profissional em Filosofia) – Universidade Federal de São Carlos, São Carlos, 2020. Disponível em: http://repositorio.ufscar.br/items/2bf320d7-0201-43df-b54c-97359c0c8997. Acesso em 22 abr. 2025. |
Fonte: Elaborado pela autora (2025)
O corpus de pesquisa foi analisado sob a luz da ATD, concebida por Moraes (2003, p. 209), como um “[...] processo auto-organizado de produção de novas compreensões”, composto por um ciclo com três movimentos. O primeiro é a unitarização, que consiste na desmontagem e exame detalhado dos textos para perceber seus sentidos. O segundo, é a categorização, que estabelece relações entre unidades para compreender como “[...] elementos unitários podem ser reunidos na formação de conjuntos mais complexos, as categorias” (Moraes, 2003, p. 191). Por fim, o último movimento é a captação do novo emergente, momento em que, a partir do envolvimento aprofundado com o material, há a emergência de uma compreensão renovada do todo analisado. Essa etapa culmina na elaboração de um metatexto, que expressa a síntese interpretativa construída ao longo do processo.
Concepções de infâncias e crianças nos caminhos da filosofia
Esta categoria de análise concentra-se nas concepções de infâncias e de crianças identificadas nas dissertações analisadas. Os sentidos que emergiram envolvem, por um lado, duas compreensões de infâncias: uma como ausência e outra como potência; e por outro, duas formas de compreender as crianças: a primeira – uma “visão tradicional” – historicamente as silenciou e marginalizou, enquanto a segunda – uma perspectiva mais contemporânea – busca reconhecê-las como sujeitos ativos, plurais, capazes de pensar autonomamente, questionar e elaborar novas formas de interpretar o mundo.
Sobre a visão negativa da infância destacamos os textos CP1 e CP7. Ambas as produções criticam a compreensão de infância como uma fase transitória da vida, uma etapa a ser progressivamente superada. Essa visão tradicional sobre a infância remete à modernidade, momento em que tem início o que se denomina sentimento de infância, a partir do qual as crianças passaram a ser reconhecidas como membros legítimos das famílias e tornaram-se objetos de atenção pela sociedade. No entanto, mesmo com a evolução do chamado sentimento de infância e o reconhecimento progressivo das crianças, os textos salientam que elas passaram a ser vistas de uma maneira reducionista, pois, sob uma lógica adultocêntrica, que toma o adulto como o modelo ideal, a imagem que se constrói das crianças, em comparação a ele, é a de alguém a quem falta algo, isto é, de sujeitos incompletos, dependentes da condução e modelação dos adultos. Essa postura em relação às crianças contribuiu para o seu silenciamento, sua inferiorização e sua exclusão social.
Em contraste com essa concepção tradicional que é denunciada, as dissertações CP1, CP2, CP3 e CP7, apoiadas nas perspectivas teóricas da Filosofia e da Sociologia da Infância, concebem a infância como uma categoria geracional, construída social e historicamente, atravessada por contextos socioculturais diversos e marcada por múltiplas potencialidades. Nessa conjuntura, a infância é tomada como uma dimensão legítima da experiência humana, plena em si mesma e propícia a experiências frutuosas, reconhecida como igualmente capaz de enfrentar questões filosóficas, tal como qualquer outra etapa da vida.
Na esteira desse entendimento positivo sobre a infância, o texto CP6, respaldado pelas ideias Walter Kohan, distingue duas formas de pensar a infância a partir dos tempos chrónos e aion. No chronos, vinculada ao tempo cronológico, linear e sucessivo, a infância é considerada como uma etapa da vida. No aion, associada a um tempo intensivo, com uma duração que não pode ser numerada e na qual não há sucessão, a infância aparece como a potência de cada idade, sem ela mesma ter uma idade determinada. Com base nisso, a autora de CP6 defende que, independentemente da perspectiva temporal adotada, é fundamental investir esforços para que as crianças vivam o tempo presente e, portanto, é necessário reconhecer seus direitos e suas vozes diante das mais diferentes situações.
O que queremos evidenciar é que as compreensões positivas de infância se afastam da visão tradicional ao romper com modelos universais e lineares do desenvolvimento infantil, frequentemente sustentados por narrativas modernas de progresso. Apesar disso, o texto CP2 nos alerta que essas perspectivas ainda não são aceitas e instituídas de modo soberano na educação. Reconhecer a criança como sujeito social não implica em aderir a um modelo homogêneo e definitivo, pelo contrário, exige considerá-la em contextos concretos, admitindo a existência de múltiplas infâncias, atravessadas por diferentes condições de existência. Assim, o texto CP2 questiona a ideia de uma infância universalizada e destaca a importância de reconhecer a pluralidade das infâncias, convocando-nos a considerar as desigualdades que atravessam as experiências infantis.
Voltemos agora o olhar sobre as crianças. A perspectiva negativa sobre elas revela-se, sobretudo, como contraponto à visão positiva, ou seja, é a presença desta compreensão que permite identificar e problematizar aquela. Os textos que compõem o corpus fazem uma crítica a visão que reduz a criança a um ser em devir, destinado a tornar-se adulto ideal, desconsiderando a sua potência no presente. Acerca dessa ideia, a dissertação CP2 afirma que é preciso deixar de lado a compreensão da criança como ser em devir para reconhecê-la como sujeito pleno, pois apenas com esse movimento é possível romper com práticas que subordinam as crianças à reprodução do modo de pensar, agir e viver dos adultos, isto é, práticas que obrigam as crianças a se adequarem à sociedade e as suas expectativas.
Convergindo com este entendimento, os textos CP3 e CP6, inspirados em Walter Kohan, rejeitam a ideia da criança como “protótipo do adulto” e defendem uma concepção de infância como condição para a experiência, como uma abertura ao estranhamento e ao pensamento. Ademais, destacam que é impossível pensar as crianças fora das suas realidades sociais, visto que se tratam de seres com histórias e direitos, que precisam ser respeitados enquanto sujeitos.
De maneira mais explícita, o texto CP1 propõe que as crianças sejam reconhecidas como sujeitos com voz própria, enfatizando a necessidade de escuta e de reconhecimento das crianças como pessoas que aprendem investigando, com direito ao pensamento próprio. De modo semelhante, o texto CP2 acentua a importância de reconhecer as crianças como sujeitos de direitos, ativas na vida social, lembrando que, mesmo principiantes na vida em sociedade, já trazem em seus discursos marcas sociais e precisam ter clareza disso.
A partir dessas compreensões afirmativas – que valorizam a pluralidade das infâncias e reconhecem as crianças como sujeitos curiosos, questionadores e inventivos – as dissertações convergem em um ponto, a saber, o entendimento de que a infância é um tempo privilegiado para o exercício do questionamento, da investigação, da criação e do exercício do pensamento. Nessa perspectiva, textos como CP7, CP6 e CP1 salientam que as crianças habitam o mundo com curiosidade, movidas pelo espanto e pelo desejo de descobrir o seu funcionamento. Já os textos CP2 e CP4 enaltecem a capacidade das crianças de criar, imaginar, reinventar e atribuir novos sentidos à realidade.
Assim, a partir do que foi apresentado, a infância é entendida não apenas como potência, mas como a possibilidade da reinvenção da vida e como forma de resistência à subordinação às normas instauradas, capaz de criar novos mundos, caminhos e sentidos. Nessa perspectiva, a infância seria um campo de experimentações vivas e de contato criativo com o mundo.
Considerações Finais
A partir da trajetória que percorremos até aqui, a análise das dissertações orientadas por professores(as), membros do GT Filosofar e Ensinar a Filosofar da ANPOF, entre os anos de 2017 a 2022, permitiu compreender como diferentes concepções de infâncias e de crianças atravessam as investigações que articulam Filosofia, Educação e Infâncias, especialmente no tocante às possibilidades de as crianças filosofarem e de fazer filosofia com e para crianças. Os resultados evidenciaram uma crítica bastante intensa e consolidada às visões tradicionais de infância, entendida como uma mera fase da vida, uma etapa a ser superada e, também, de crianças, que historicamente foram reduzidas a um vir-a-ser, a uma matéria maleável para realizar o modelo do(a) adulto(a) ideal.
Frente a esse diagnóstico, os textos analisados nos convocam a superar a concepção de infância linear e universal, entendida como um período de preparação para vida adulta, na qual as crianças são vistas como sujeitos passivos, incompletos e subordinados aos projetos adultos. Em contraposição à essa visão tradicional, os estudos não apenas apontam para que a infância seja reconhecida como uma potência, um tempo legítimo de pensamento e de investigação filosófica, marcada pela curiosidade, pela imaginação e pela abertura ao novo, mas também para o reconhecimento de múltiplas infâncias, concretas e situadas, atravessadas por condições sociais diversas. Ademais, acerca das crianças, os textos também defendem que elas sejam reconhecidas como sujeitos ativos, produtoras de cultura e de saber filosófico, isto é, como sujeitos de direitos. Nesse sentido, os referenciais encontrados na Filosofia e na Sociologia da infância foram fundamentais para tensionar em que medida as concepções adultocêntricas, que se esforçam em colocar as infâncias e as crianças em um lugar menor, ainda reverberam nas práticas escolares e pedagógicas dos dias atuais.
Ao elucidar essas compreensões, esperamos que este estudo contribua para fortalecer o campo do Ensino de Filosofia, especialmente no que diz respeito às práticas filosóficas para/com crianças, reafirmando a importância de considerar as infâncias não como uma preparação para outra etapa da vida, mas como uma experiência plena, fértil, que possibilita às crianças reinventar outros modos de habitar o mundo.
Referências
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